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PRIMEIRA  EXPEDIÇÃO  DE  RONDON  AO  RIO  JURUENA  -  1907
(Da cidade de Mato-Grosso, antiga Vila Bela, ao Rio Juruena)


Major Cândido Mariano da Silva Rondon, em 1907
Rondon, o desbravador do sertão, o pacificador e protetor dos índios

Primeiro dirigente do Serviço de Proteção aos Índios, por ele criado em 1910
(função que ele já exercia extra-oficialmente)

Frases que ele sempre repetia:
“Morrer, se  preciso  for.  Revidar, nunca!”
“Estamos aqui como invasores e devemos respeitar os donos da terra”

Transcrição de uma das conferências no Rio de Janeiro, do já Tenente-Coronel Cândido Mariano do Silva Rondon, constante das páginas 382 à 388 do Álbum Gráfico do Estado de Mato-Grosso, impresso em janeiro de 1914 na Alemanha):

  “A 1º de julho de 1907, saímos da cidade de Mato-Grosso para Casalvasco, extensa caminhada entrecortada de muitas vazantes, corrixas e lagoas que lhe aumentavam o valor e a beleza.
Do antigo povoado, fundado em 1782 pelo Capitão-General Luiz de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres, resta uma casa apenas. Não há vestígio de ruas: os destroços do quartel e do hospital são o único sinal do lugar em que esses edifícios existiram. Vêem-se alguns restos das paredes do palácio e as ruínas da igreja conservam os altares com as suas imagens.
De Casalvasco, retrocedemos para Cáceres e, tomando a estrada de Poconé, passamos pelo contraforte do Mangabal, o rio Bento Gomes que se perde no pantanal do Paraguai, Livramento e Brotas, onde chegamos  a 7 de agosto, inaugurando a respectiva estação telegráfica.


BROTAS - Inauguração da Estação Telegráfica, a 7 de agosto de 1907


Nesta povoação, comecei a organizar a expedição de descobrimento do Juruena, que tinha de abrir a série de explorações do sertão bruto, para as quais não havia a contar com outros recursos além dos que nos dessem as próprias forças.
As raras pessoas que se jactavam de haver atingido essas paragens, só em um ponto combinavam entre si e com os documentos antigos: era no fornecer informações vagas, contraditórias e fantásticas.
Em resumo, o Juruena apresentava-se-nos como uma incógnita, cujo valor só pode ser calculado por tentativas sucessivas. Que rumo conviria seguir? Pelo divisor das águas do Tapajós e Paraguai, ou de Aldeia Qeimada internar-nos para o noroeste?
Essas dúvidas deixavam-nos enleiados quanto à escolha da base de operações; arriscávamos-nos a adotar a menos conveniente, para prover o abastecimento da expedição, desde que esta fosse forçada a tomar uma direção diferente da traçada por conjecturas. Para limitar os efeitos dos erros possíveis, decidi restringir o campo destes primeiros esforços a atingir as margens do famoso formador do Tapajós: ele nos serviria de ponto de apoio das futuras operações.

 

À PROCURA DO RIO JURUENA

Organizei a expedição, distribuindo os trabalhos por quatro divisões: exploração na vanguarda, condução do material, serviços de acampamento e cozinha e, finalmente, o comboio.
Dispus que, enquanto pudéssemos andar a cavalo, iria na frente um picador, com baliza, dando sinais por meio de trompa; eu designava os rumos e, com auxílio de igual instrumento, regulava os movimentos da baliza. Um dos meus ajudantes, cuja montaria tinha o passo aferido, munido do passômetro, registrava as distâncias, encarregava-se do levantamento expedito e do aneróide. O picador assinalava o trilho a seguir, por golpes nas árvores e uma turma de foiceiros e machadeiros abria a picada da largura de 2 metros.


Assinalava o rumo a seguir, com um pique nas árvores

 


No alto, à direita, Rondon  observando a abertura da estrada

 


A turma da abertura de estradas – 1907

 

 

 


O Fotógrafo Leduc com a sua câmera, ao lado de Rondon apeando de sua mula

A máquina que o Fotógrafo Leduc usava era grande, caixa de madeira, parecida com aquelas que havia antigamente nas praças públicas, chamadas “lambe-lambe”, com tripé e tudo. Pela falta de luz à noite, só fotografava durante o dia. Os negativos eram em vidro, tamanho 18 x 24, que ele mesmo revelava e copiava, numa primeira prova, na própria barraca, onde improvisava uma câmara escura e depois enviava os negativos para o laboratório no Rio de Janeiro, para preparo. E como era difícil o transporte!
Depois de viajarem léguas e mais léguas, muitas vezes a pé, chegavam a um lugar onde se via água para beber. Paravam para matar a sede, mas a água estava coberta com uma galharia e encharcada de folhas. Milhões de moscas e mosquitos na superfície.  Estendiam o lenço sobre a água e sorviam o líquido, o quanto podiam.
Conforme depoimento que nos foi dado recentemente pelo pesquisador, Sr. Joel W. Leão, residente em Cuiabá, Diretor do filme “Rondon, o último dos bandeirantes” e de outros trabalhos a ele relativos, Luiz Leduc descobriu um método de evitar, nas fotos tiradas com o objeto em movimento, o ”arrastão” que era um sombreado em forma de leque, que ficava ao lado das figuras, o que conseguiu, constituindo fato inédito, na época.



O Fotógrafo Leduc conversa com o Major Rondon

 


O Major Rondon em sua barraca, pondo em dia o diário de viagem

 


Rondon (com as pernas cruzadas) e os preparativos para levantar acampamento

 


A marcha começava pela madrugada, o mais cedo possível e terminava ao maio dia, no ponto escolhido para o novo acampamento.


DIAMANTINO – de 29. 8 a 2. 9. 1907.  Designei para ponto de partida a vila de Diamantino, situada a noroeste de Cuiabá, da qual dista 184 km.
Famoso no passado pelas suas riquezas, Diamantino conta hoje mais de mil habitantes e serve de entreposto da borracha, que vem dos sertões dos Parecis, em demanda do porto do Rosário, sobre o rio Cuiabá.
Além da igreja, dedicada a N.S. da Conceição, notam-se os edifícios da Câmara Municipal e da cadeia. As casas, de taipa e adobes, obedecem ainda ao tipo usado no tempo da fundação.
Depois de quatro dias de demora em Diamantino, consagrados a observações astronômicas para determinação das coordenadas geográficas (achamos 14° 25' 29" de latitude sul; 13° 16' 13" de longitude oeste do Rio; e 1° 11' Nordeste de declinação magnética), partimos a 2 de setembro de 1907 do largo da igreja, onde esteve estabelecido o nosso observatório, com azimute verdadeiro de 22º 56' Noroeste.

Percorridos 12 km., começamos a galgar a Serra dos Parecis, até o lugar chamado Arroz Sem Sal; transpusemos o rio Sant´Ana, o mais oriental dos afluentes do Paraguai e entramos no chapadão dos Parecis.
A 7 de setembro, já estávamos de relações com estes índios, em Uxalintrá e festejamos a grande data da nacionalidade, com o concurso do cacique Locujerê, que se encarregou de hastear a bandeira, três salvas de dinamites e toque de corneta.


Rondon conversa com os índios


Rondon procurava aprender a língua dos indígenas,  para poder comunicar-se, quando os encontrava
Daí, partimos com o índio Savadá-Issú, que nos serviria de guia. Percorremos 43 km., chegando à cabeceira dos Veados, ou em Pareci, Cuzui-suê, onde, ainda em 1897, Baddariotte constatava a existência de uma maloca, hoje substituída por um rancho de seringueiros.
Deixando o comboio nessa cabeceira, segui por um trilho de índios, em busca do rio Xacuruina, no qual sabia existir uma ponte natural, de pedra e, pouco acima, uma cascata. Antes de chegar no Xacuruina, corrupção de Saucru-iná (Papagaio), passei pela cabeceira dos Três Jacus, onde estabeleceu-se um barracão de seringueiros e atravessei um vasto chapadão que me deu pela primeira vez a ocasião de observar os assombrosos enxames de gafanhotos que tudo assolam em sua passagem.
Afinal, tendo andado 63 km. para Nordeste, chegávamos ao ponto em que o Saucru-iná, depois de belíssimo salto, vai passar por baixo de um arco, aberto na rocha pelas suas próprias águas, ficando assim constituída a ponte que motivou o nome do lugar.


3 de outubro de 1907 (Foto: Luiz Leduc)


Ao regressarmos da Ponte de Pedra, encontramos duas turmas de parecis das aldeias de Anhanazá e Corui-inazá, chefiados por um Manoel Benedito e Fanchê (Zozororariri). Eram trinta pessoas, entre homens, mulheres e crianças.
No mesmo dia, visitei-os em seu acampamento e depois distribuí-lhes, pessoalmente, vários presentes.
Continuando para o poente, chegamos, a 16 de setembro, à aldeia Zutiá-Curé-suê, do Amure Zamaia-Zumarê e, a 17, à do Amure Uirarê, cujos habitantes trabalham no seringal do italiano Toscano.
A 19, estávamos em Aldeia-Queimada, onde esperávamos o grupo de Cozarinis, chefiado por Totoiry, que foi nosso guia na segunda expedição, em cujo decurso tive ocasião de reconhecer e admirar as suas belas qualidades de inteligência e caráter.
Da Aldeia-Queimada, seguimos para a cabeceira Manatácô-suê, onde existe a maloca do Amure Uaza-curiri-guassú, que nos serviria de guia para diante. Nessa maloca, pude estudar o sistema usado pelos Parecis na construção de seus ranchos, observando um, cuja feitura estava no meio.

CONSTRUÇÃO DE RANCHO PELOS ÍNDIOS PARECIS


(Foto: Luiz Leduc)

Na impossibilidade de dar a descrição completa, direi apenas que a cobertura desses ranchos é de sapé, folhas de pacova, de mala-malá e, às vezes, de buriti. Não estedem o sapé como os nossos matutos, mas põem-no em feixes munidos de pequenos ganchos ou alças de madeira, que servem para prender cada feixe aos caibros. Para impedir a invasão das águas, cercam a habitação com um rodapé de cascas de Omé
Já que trato deste assunto, direi alguma cousa mais, rapidamente, sobre os usos e costume dos Parecis. Eles vivem por grupos isolados, familiares, com um chefe temporal (Amure) e um espiritual (Utiarity). Armam as redes umas por sobre as outras; a do marido fica sempre acima da rede da esposa.  Além das redes, têm nas cabanas tocos que lhes fazem a vez de cadeiras e, na falta deles, não se assentam no chão, mas ficam de cócoras, usando as mulheres nestas ocasiões uma posição que satisfaz a mais escrupulosa decência.
Há, sempre, em cada aldeia, um moquém permanente, do qual, quem tem fome, tira o que deseja; ele é mantido por caçadores alternadamente designados pelo Amure.
Nesta expedição, verifiquei que a grande tribo dos Parecis divide-se em três ramos: o dos Uaimarés, filhos de Zacale e Saluiê; o dos Caxinitins, filhos de Záotorê; e o dos Cozariuis, filhos de Camasso, o Gande.
Na expedição de 1908, reconheci que, além destes grupos, há ainda um outro, chamado Iranches.  Estes conservavam-se arredios até o ano passado, quando começaram a ter os primeiros contactos pacíficos com o pessoal da Comissão de Linhas Telegráficas; os outros, há muito tempo vivem em comércio com os civilizados. Atualmente, só os Uaimarés e Caxinitins empregam armas de fogo, com as quais atiram maravilhosamente; apreciam o boi e o cavalo, que obtêm dos seringueiros, em troca de dez e mais arrobas de borracha.
Cada grupo possui terras delimitadas, que considera propriedade sua, porque “seus avós aí nasceram e morreram, aí viveram caçando e plantando".
Certa ocasião, ofereci ao Toloiry levá-lo com a sua gente para região mais rica, abundante em seringa e mais favorável à agricultura. “Não saio do rio Verde”, respondeu ele, “Gosto do chapadão onde Camaicoré caçava veado, caçava ema. Olho para esse chapadão e fico saudoso”.
Os índios são muito carinhosos com os filhos; nunca os castigam; levam-nos a toda parte e ensinam-lhes a cantar desde muito crianças.
Das várias cerimônias usadas entre os Parecis, descreverei apenas a do casamento.

RITUAL  DO  CASAMENTO  ENTRE  OS  ÍNDIOS  PARECIS

Os Uaimarés celebram-no sempre à tarde. A noiva vai de sua casa para a do Amure, acompanhada pelo padrinho, amigos e parentes. O noivo chega depois.
Diante de todos e sentado ao lado do Amure, o Utiarity dirige-se primeiro à noiva: “Virô ikaiánênê aukitá? (Você que casar-se?). Utiarity levanta-se e a noiva responde: “Suanian?” (Como não?). Utiarity acrescenta: “Uaiè enatá. Ikaizaniu etatiê enà môkoc ê” (Muito bem. Tenha logo uns filhos; que o primeiro seja homem). Este voto o padre faz, para que o menino possa servir de arrimo às irmãs que vierem depois.
Em seguida, dirige-se ao noivo; Utiarity: “Iço ikáia netem oná halalá kiditene. Iáne ená okakuá”. (Vem cá. Você está casado. Você não pode deixar sua mulher. Você vai levá-la). E acrescenta esta pergunta: “Suana mokocê itiani aukitá?”. (Quantos filhos quer você?).  Responde o noivo: “Zolakaikuá”. (Quero quatro).
O padre diz: “Uaie enatá”. (Muito bem). Em seguida, abraça os noivos, dizendo:”Zatakaikuá hanã” (Façam vocês o mesmo).
Depois de os noivos se abraçarem, o padre despede-os com estas palavras:”Zicãno-hie” (Dêem o braço).
A cerimônia termina na casa do noivo, onde realiza-se a Kaulonená – a grande festa.
Em geral, os Parecis são monógamos. Há, porém, os casos de poligamia, limitada aos chefes, nunca excedendo de dois o número de mulheres, irmãs quase sempre.
Estávamos na cabeceira Manaracuá-cuê. O índio Toheroá informou-nos que não muito longe existia um grande salto do rio Timalariá, ao qual os Parecis dão o nome de Zuziro Uamolenê (Salto da Mulher), por acreditarem que ali vive uma ninfa que arrasta para o abismo os incautos que dele se aproximam.
Fui vê-lo e pareceu-me realmente digno do interesse que desperta no espírito dos filhos do chapadão: tem 80 metros de altura; o volume fornecido por segundo avaliei em 38 metros cúbicos; o potencial é, pois, de 4 mil cavalos vapor.
Este mesmo rio, depois de ter as suas águas acrescidas pelas de um afluente bastante considerável, dá um segundo salto, da altura de 40 metros, com a descarga de 70 metros cúbicos, desenvolvendo o potencial de 35 mil e 700 cavalos.  Blaimont já o havia descrito e eu, quando o avistei, no intervalo da primeira para a segunda expedição, dei-lhe o nome de Salto Belo.
Por mais que nos pareçam maravilhosas essas duas importantíssimas quedas, reservatórios de energia que hão de satisfazer, senão exceder, a todas as exigências da indústria numa época de prosperidade e florescimento, cuja vinda eu desejaria acelerar, no entanto, reunidas, não conseguem igualar à do rio Saucru-iná, por mim visitada a 3 de outubro. Imagine-se um rio de 90 metros de largura, com a descarga de 80 mil litros, lançando-se da altura de 80 metros e ter-se-á uma idéia, ainda assim imperfeita, do portentoso salto, a que chamei de Utiarity, nome de um pequeno gavião sagrado para os Parecis.
No Juruena existe uma quarta catarata que, a julgar pelas informações que me deram, seria ainda maior do que essa do Saucru-iná, mas ainda não a visitei.
Do Salto de Utiarity, continuamos para o poente; atravessamos o Zolaharú-iná, importante afluente do Saucru-iná e chegamos, a 10 de outubro, ao extremo do território, em que os caminhos e trilhos dos Parecis ofereciam alguma facilidade à nossa marcha.
Estávamos a 607 km. a noroeste de Cuiabá; íamos penetrar em terras dos Nhambiquaras.
Festejamos o descobrimento da América no dia 12.10.1907 às margens do Uatiáu-iná (Rio do Calor).
Já nesse tempo aumentavam as nossas privações: a carne, o sal, a farinha e o açúcar foram, sucessivamente, acabando e só restava um pouco de feijão, banha e café, cujas rações tiveram de ser diminuídas, na previsão das necessidades da volta.
Felizmente o mato nos fornecia bastante caça, algumas frutas e mel, inexcedível alimento de poupança, insubstituível nas grandes caminhadas a pé.
No dia 14, tendo eu saído com os índios Uazacuririguassú e Aré, para continuar a exploração de uma cabeceira, fui colhido pela noite, ainda muito longe do acampamento, no meio de intrincado charravascal. Para aumentar as dificuldades, começou a cair uma chuva torrencial e Aré, que ia na frente, abrindo caminho a facão, deu um golpe em falso que o atingiu na rótula, inutilizando-o para o trabalho.  Tomei a frente e, rompendo o charravascal com o peso do corpo, marchei com firmeza no rumo do acampamento, onde chegamos em mísero estado, com arranhões profundos por todo o corpo, a roupa em trapos e molhados até a medula.
Encontrei o acampamento alarmado, com o pensamento que me houvesse acontecido maior desgraça. Eu bem imaginava os momentos de torturante perplexidade que teriam de passar os meus companheiros de expedição, enquanto ignorassem o que me havia acontecido e foi esse pensamento que me deu força para vencer o espesso trançado de varas finas, taquarinha e gravatá, de que se formam os charravascais de Mato-Grosso, mais fechados que as caatingas, de que diferem também pela vegetação e semelhantes aos “espinhais” da Argentina e aos “caparrais” do Texas. Nenhum animal de certa corpulência, nem mesmo a anta, os pode romper.
Apesar deste contratempo, eu estava satisfeito, porque a exploração nos havia conduzido ao ponto em que os Nhambiquaras passavam o rio Saucru-iná, servindo-se para isso de uma pinguela construída com muita arte. Era uma árvore derrubada a machado de pedra, ainda presa à cepa e atravessada no rio, cujas margens ligava. Aumentaram-lhe a largura, pela adjunção de vários paus, fixados ao comprido do tronco, por meio de fortes amarrilhos de cipó. Na outra margem, golpearam o ramo de uma outra árvore, de modo que, sem desprender-se do tronco, caísse sobre a pinguela. Ligando-a com cipós a esse ramo, obtiveram um sistema de amarração que a garantia contra o empuxo da correnteza. Denominei essa passagem de “Porto dos Nhambiquaras”.

Divisa dos territórios Pareci e Nhambiquara:


Travessia do Rio Papagaio (Saucru-iná), à procura do Rio Juruena (16.10.1907) Foto: Luiz Leduc


NA TERRA DOS NHAMBIQUARAS  (UAIKOAKORÉS)

Levando a exploração e a picada para a frente, já no outro lado do Saucru-iná, em pleno cerrado, avistei um índio de estatura média, cabelos cortados, que ia sozinho à procura de mel. Por feliz acaso, bem defronte do lugar em que eu e meu companheiro da vanguarda nos conservamos imóveis, para que não nos percebesse, descobriu ele uma abelheira. Pudemos, assim, apreciar os detalhes de seu trabalho. Vímo-lo arriar o maço de flechas e o arco; sacar do baquité que trazia a tiracolo, um machado de cabo curto e, em poucos minutos, abrir na árvore uma cavidade necessária para meter a mão e retirar o precioso néctar. Depois, ouvindo o barulho dos machados e fouces dos sapadores que vinham abrindo a picada, olhou para o nosso lado; sem mostrar temor, retirou-se lentamente.
Vem a propósito relatar o curioso processo de que usam esses índios na extração do mel. As abelhas procuram árvores ocadas para formarem a colméia. A contextura desta apresenta certas modificações, conforme as espécies; mas, em geral, consta de: uma porta ou canudinho de cerca, cujas dimensões, cor e forma variam; um canal estreito que se comunica com o oco maior, depósito dos primeiros e mais abundantes favos; e, finalmente, a cavidade em que depõem os ovos e criam os filhos, por baixo dos quais, quase sempre, colocam uma última camada de mel, separando este daqueles por fortes paredes de resina.  Pois bem, o índio dirige os golpes do machado precisamente para o depósito de mel, não tocando nas outras partes. Terminada a colheita, tapa cuidadosamente a abertura com folhas largas, de modo que a colméia, continuando a viver, tempos depois, pode dar nova colheita.
Seguindo deste ponto, atravessamos outro charravascal e um córrego, a que chamamos Jaty. À margem esquerda deste, entramos em grande descampado, indício certo de tapera de índio.  O Amure Uazá reconheceu, talvez por tradição, ter sido este o lugar de uma antiga aldeia de Parecis, denominada Zocuriúiná. Contou-nos que aqui a sua gente recebeu o último golpe dos civilizados, provavelmente bandeirantes paulistas, que aprisionaram grande número de Parecis, levando-os como escravos para a cidade, de onde nunca mais voltaram.  Estas reminiscências mostram-nos que os Parecis já habitaram nos terrenos dos índios a que eles denominam Uaikoakorés e nós Nhambiquaras.
Reconhecendo o direito de conquista, os Parecis não aspiram a qualquer reivindicação. Perguntei-lhes se desejam voltar aos seus antigos domínios: responderam-me que não, porque hoje são dos Uaikoakorés. E este respeito pela propriedade alheia “acia” (dizem eles, no seu meio-português), não se limita ao solo, mas abrange tudo quanto nele existe: a caça, os vegetais, as frutas, os rios, os peixes e, até, as pedras de utilidade para a tribo. Muitas vezes eu disse ao Amure Toloiry, que foi o meu primeiro guia em 1908 e 1909, que ele estava desrespeitando o veado, a ema e os peixes dos Nhambiquaras: retrocedia que não podia ser responsabilizado pelas caçadas que fazia em obediência a ordens minhas e que só a mim, Amure Cândido Mariano, cabia responder pela invasão destes territórios.

 

 

Nos dias 18 e 19 de outubro, a nossa picada atravessou vários caminhos de Nhambiquaras, que seguiam a direção N.S. Alegramo-nos com esses sinais de proximidade de uma grande aldeia, a qual projetávamos visitar logo depois de encontrado o Juruena. Sabíamos que os nossos movimentos estavam sendo observados pelos Nhambiquaras, de dentro do mato. Mas estávamos longe de supor que eles tivessem intenções hostis contra nós e pretendessem desforrar-se da assolação que pouco antes lhes havia levado um bando armado do seringueiro Pedro Vigner que, apesar da esmagadora superioridade dos Winchesters sobre o arco e a flecha, foi repelido do vale do Uatianiná.
No dia 19, estabelecemos o bivac numa antiqüíssima tapera de índios, à margem esquerda da cabeceira do Jaty. A esse bivac chamamos “Acampamento de Saucru-iná”. Tendo verificado achar-me próximo do rio Juruena, no dia seguinte, 20 de outubro, continuei a exploração até alcançar certa chapada, na qual havia uma sucupira muito alta. Subi a essa árvore para melhor descortinar o horizonte e tomar rumo. Desse observatório, foi que avistei distintamente o vale do Juruena. Esclarecidos sobre a direção que convinha seguir, não tardamos em encontrar um trilho de Nhambiquaras, pelo qual nos metemos, indo afinal sair no rio que procurávamos com tantas canseiras e perigos.
Eu e os meus sete companheiros deparamos com um excelente porto, tendo em ambas as margens capoeiras dos índios. O rio mede, neste ponto, 80 metros de largura; as suas matas são altas e majestosas e as águas tão claras que se avista facilmente a areia do fundo.
Acima do porto, existe uma pequena cachoeira, em rocha de itacolomite, de que se forma o sob-solo das margens.
Depois de saudarmos o rio com vivas à República e três salvas de três tiros, dados por mim, Tenente Lyra e o Fotógrafo Leduc, recolhemo-nos ao acampamento do Saucru-iná, resolvidos a, no dia seguinte, levarmos todo o pessoal da expedição ao ponto que acabávamos de atingir.
Chegamos ao Juruena com 484 km., a partir de Diamantino; adicionando a esse número 135 km. das variantes, temos 618 km. de exploração, executada de 2 de setembro a 20 de outubro.


Dia 20 de outubro de 1907 – Chegada ao Rio Juruena, em um ponto com 80 m. de largura – 1ª Expedição    -     Foto Leduc

 


Tenente Lyra, Major Rondon e o fotógrafo Leduc, no grupo dos 8 que primeiro atingiram o rio Juruena, em 1907


No dia 22 de outubro, saímos (com todos da expedição) do acampamento do Saucru-iná em demanda do Juruena, devendo eu, de passagem, ir pelo trilho dos índios à aldeia, cuja proximidade se revelava, pela freqüência de pegadas recentes. Éramos quatro e marchávamos em fila: o da frente ia armado de Winchester, em seguida eu, com a minha Remington de caça, em terceiro lugar o Tenente Lyra e por fim o Fotógrafo Leduc, ambos com pistolas Colt.


Os quatro cavaleiros, quando do ataque dos Nhambiquaras a Rondon, no dia 22 de outubro de 1907:
o Guia Domingos, Major Rondon, Tenente Lyra e o Fotógrafo Leduc

Ainda não havíamos feito um quilômetro, quando sinto no rosto um sopro e vejo de relance um vulto, como um passarinho que cruzasse o meu caminho, na altura dos olhos e bem próximo. Acompanhei-o com a vista, à direita e só então compreendi... A choupa de uma flecha, cuja ponta se cravara no solo arenoso, ali estava vibrando. Já uma segunda mensageira da morte passara-me rente da nuca, roçando o capacete; e diante de mim, a uns doze passos, dois guerreiros Nhambiquaras retesavam seus arcos. Tiro a espingarda do ombro, dou um tiro para cima à esquerda e logo outro à direita... e isto num instante tão fugaz, que já estava tudo terminado, antes que os meus companheiros se apercebessem do ocorrido.
Eu acabava de ser alvejado por três flechas, as duas a que já me referi e outra que, esbarrando na espingarda, quebrou-se. Minutos depois, examinando o lugar, descobrimos duas flechas que haviam sido atiradas contra a pessoa que caminhava na frente. Passada a surpresa, queriam os meus companheiros meterem-se pelo mato, em perseguição dos índios; a isso opus-me, mas para contê-los, foi preciso apelar para o prestígio do meu posto.


O fotógrafo Leduc, Tenente Lyra e o Major Rondon e os demais expedicionários e o índio Ariti  com as  flechas  que  os Nhambiquaras haviam lançado contra Rondon.  -  Expedição de 1907  - Foto Leduc


Os assaltantes Nhambiquaras, depois dos tiros, abaixaram-se e, como por encanto, desapareceram no cerrado. Os cães os perseguiram. Pouco depois, ouvimos os uivos de um deles; acabava de ser atingido por alguma flecha. Desse fato, concluí que a guerrilha tinha uma segunda linha, naturalmente reforçada.
Ao chegar o grosso da coluna, mandei o Uazacuririguassú examinar o cerrado em derredor; pelas pegadas, ele reconheceu a existência de três grupos de guerreiros: os que efetuaram o assalto, quatro na segunda linha e maior número na terceira.
Não viéramos à conquista dos índios, mas sim trazer até o Juruena o reconhecimento de que necessitavam as operações posteriores da Comissão de Linhas Telegráficas; e, como este objetivo estava alcançado, decidi organizar a retirada, único meio seguro de evitar represálias cruentas, cuja conseqüência seria estabelecer o estado de guerra permanente entre os índios e o pessoal da Comissão.
Retirávamos-nos com a satisfação de vermos plenamente realizado o programa que nos impuséramos, ao organizar esta primeira expedição.
Os víveres estavam esgotados, os animais afrouxavam, extraviavam-se e morriam de fome, de cansaço, extenuados nos grandes atoleiros e algum envenenado pelas ervas.
Quanto a nós, tínhamos a nossa alimentação garantida por excelentes frutas: jabuticabas, mangabas, guapeva, airú, tocary, coco de indicá – além de palmito, das perdizes, jandaias, torcazes, veados e tatus e, mais do que tudo, pelo incomparável mel de nossos sertões.
Do ponto em que dera o assalto, regressamos para o bivac Zocôriu-iná, donde saímos às dez horas da manhã, em demanda do acampamento da margem esquerda do Saucru-iná, que alcançamos às sete da tarde, realizando, assim, um percurso de 31 km. em oito horas. O dia seguinte, 23 de outubro, foi dedicado ao descanso dos doentes e muares. Festejamos, então, o descobrimento do Juruena.
A 24, os doentes apresentavam algumas melhoras, pelo que continuamos a retirada, até Uatiá-iná. Os Nhambiquaras acompanhavam-nos, com certeza, na esperança de encontrarem momento favorável de carregar contra nós. Para transpor o Uatiá-iná, tínhamos de lutar com os atoleiros de suas margens, o que não podíamos fazer em presença dos índios.
Só nos restavam, pois, dois alvitres: ou bater os matos para afugentá-los, ou contornar as cabeceiras do rio, para evitar os atoleiros e a ocasião da realização de assaltos.
Apesar das enormes dificuldades que nos acabrunhavam, adotei sem vacilação este segundo alvitre, cuja execução ia custar-nos uma volta de 9 km. Mas cumpria, a todo custo, evitar a guerra com os habitantes de uma zona, por onde tinha de passar a futura linha telegráfica.
No dia 4 de novembro, chegamos ao Saucru-iná (rio Papagaio), com o pessoal cansadíssimo e desanimado.  Não encontramos a canoa que nos serviu na passagem da vinda; os índios a haviam soltado, derivando ela águas abaixo. Mas era forçoso levar para a outra margem, no mesmo dia, os nossos homens, os muares e a carga.

De volta do território Nhambiquara, para o território dos Parecis:


Rondon (em pé) preparando a travessia a nado, no Rio Saucru-iná (Rio Papagaio), de volta do rio Juruena (4.11.1907)

Fizemos uma pelota de couro e, atirando-me eu, ao rio, a nado, ia rebocando-a de um para outro lado, levando-a de cada vez carregada de bagagens, arreios e cangalhas.  Assim, passei também os nossos doentes, o corneteiro Marinho, o ex-praça Bueno, o índio Aré  e outros. Esses trabalhos duraram de uma às seis da tarde
No dia 6, tendo-se acabado as últimas reservas de alimento, resolvi ir procurar algum recurso à aldeia do Timalatiá, onde chegamos a 7.
Felizmente, a nossa expectativa foi excedida pois, além da mandioca, polvilho, manicuera, ovos e um galo, encontramos também um pouco de sal, o que tudo compramos por vinte e seis mil réis.
Os índios da expedição desforraram-se da longa abstinência a que os obrigara a viagem, bebendo sem peso nem medida a “ôlônitri”, bebida fermentada que extraem da mandioca. O Amure Uazácuririgassú foi, talvez, o que mais abusou e eu tive de ouvir com paciência as diatribes que lhe inspiravam os vapores do álcool: “ocê seringueiro mêmo, ladrão mêmo; Pareci leva ocê longe, mostra seringa; ocê não paga Pareci coitado”.
No entanto, quatro dias depois, separávamos-nos bons amigos, recebendo ele, além de duzentos mil réis, duas Winchesters, fouces, facões, roupas e o meu fardamento de major.
A 13, chegávamos, finalmente, a Aldeia Queimada, onde encontramos o comboio que, ao partir, eu providenciara para aí nos esperar.
Nesta altura, pode-se considerar terminada a expedição de descobrimento do Juruena, realizada com tanta felicidade, que nenhum homem perdemos. A tropa, porém, havia sofrido horrivelmente e estava reduzida a dous bois cargueiros e quatro muares magros, estropiados e imprestáveis.
A 17, partimos, ainda a pé, para Tapirapuã. Neste porto, pudemos, enfim, obter animais de sela.
Galgamos a Serra de Tapirapuã pelo divisor do Paraguai e Sepotuba e entramos, a 29 de novembro, em Diamantino, com 967 km. de reconhecimento, ida e volta, executado no espaço de dous meses e 27 dias”. 

Fim do relato de Rondon da 1ª expedição ao Rio Juruena, que durou de 1º de julho a  29 de novembro de 1907

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